segunda-feira, 24 de maio de 2010

Hospital da Gente

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Nos dias 27, 28, 29 e 30 de maio acontecerão, na Caixa Cultural (Sé), as quatro últimas apresentações (gratuitas!) da peça "Hospital da Gente", montada pelo Grupo Clariô de Teatro a partir de textos (contos) do escritor Marcelino Freire. Se não tiver saco pra ler o texto abaixo, ótimo, mas vá ver a peça. Foi uma das manifestações artísticas que mais me emocionaram nesses tempos. Vá ver.






(Fotografada assim, sua tristeza se assemelha a um pedaço de arte)


Sua vontade transcende a busca pela paz. Sua vontade é assassinar não a paz, mas sim as roupas que fazem da paz essa madame enfeitada que desfila nas ruas centrais da cidade a distribuir bolas e bonecas de plástico. Sua vontade é comer chocolate quando estiver frio, mas não há bolsa-chocolate. Quem sou eu pra falar de suas vontades/verdades, se nem sonhos sei fazer? O mundo é menor do que o frio. O mundo é muito longe para a fome. O mundo, inteiro que é, não merece tanta atenção. Dona Preta é imune às queimaduras, venham de onde vierem: Dona Preta não se permite morrer cinza. Eu precisaria de mais umas duas horas para entrar de verdade naquele universo, e parece mesmo que meu relógio se adiantou o suficiente pra que as tais duas horas chegassem num minuto. Tive medo da polícia. Tive medo de que alguma das atrizes desafinasse nalguma das belas músicas, cantadas sempre à cappela. A polícia não subiu o morro (não desceu ao teatro) e as moças, altivas, zombaram de minha desconfiada percepção musical: passearam entre as notas como se as notas fossem seu quintal. Quase-choro. Medo do fogo: favela evaporada. Medo da chuva: morro escoado. Pensamentos que não conseguiam nem fugir pra visitar os amores breves de platéia. Vez ou outra conseguiam, já que a simples menção já os denuncia, mas eles desimportam nesse instante. Uma imensa falta de vazio. Tudo envolto pelo desânimo dos discursos de que dias melhores virão. (lá) A história é contada pela boca, contrariando qualquer tentativa de papel. A assistente social aconselha métodos contracepcionais, e doa um sorriso às crianças que esbanjam a curiosidade de quem ainda não se acostumou a receber visitas. Falo do que eu pouco conheço. Fotografo a favela com teclas de um computador: será arte? Será culpa? Será motivo pra um começo de madrugada existir?

Agora vejo/ouço, ainda claramente (?), cada fragmento de texto, cada expressão, cada cantinho de cenário, e cada música que cantamos antes de reverter nossa atenção ao mundo sugerido pelas palavras (vividas/encenadas/cantadas) de Marcelino Freire. A favela me é aquilo: é compaixão limitada pelo constrangimento; é indignação anestesiada pela fama; 

é a identidade nacional
que não se perde por não haver segunda via.

Lá as recordações não figuram em célebres albúns de fotografias:

(suas lembranças são pedaços de pano estampados de sangue)


"Cadeiras elétricas da baiana
Sentença que o turista cheire
E os sem amor os sem teto
Os sem paixão sem alqueire
No peito dos sem peito uma seta
E a cigana analfabeta
Lendo a mão de Paulo Freire

A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins, não contudo
Pé quebrado verso mudo
Grito no hospital da gente"
       (Chico Cesar)

3 comentários:

Odisseu disse...

Respondida minha pergunta do e-mail.

Tentarei ver a peça (para reler o texto).

Aprecio seus investimentos na ornamentação gráfica do texto, nunca tinha reparado em como isso pode ser interessante.

Camila de Sá disse...

...no Hospital da Geeeente.

Ah, Noubar, como é bom deslizar por cada linha precisa, mas fluida, sentindo o gosto da experiência compartilhada como público e como amigos da vida nem sempre encenável (se bem que Clarió a representaria com muita competência, e com uma beleza de dar inveja) que nos é tecida em dias de Sol num parque da cidade a noites de Lua crescente como se exibia no último domingo.
O texto faz jus à peça.
O que está muito longe de ser pouco...

Reforço a propaganda: não percam, leitores e amigos do Noubar!! hehe

Beijos

Camila de Sá disse...

E adorei o "Será arte?"... será aaaarrte?
Isso de "traduzir" as sensações e fazê-las de quase-vertigem à linguagem só pode ser arte.

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